Acordei como acordam os tolos, cheio de felicidades

Acordei como acordam os tolos, cheio de felicidades
Estação Poesia

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Ione França - Acordei como Acordam os Tolos, Cheia de Felicidades

Acordei como acordam os tolos, cheia de felicidades.

Canto Quinto

Palavra Sorriso

Imagina, há uma hora atrás , encontrei uma flor,
perdida dentro de uma palavra.
E a palavra era sorriso.

E esta palavra dava cor, forma e substância ao teu olhar. Sim, eu sei que o teu olhar sempre é de dias futuros, e de promessas bem-vindas.

Assim, sei a falta que me faz um pouco de esperança.
Esperança nos pequenos gestos, e em todos os nossos incertos despertares. Que acordar não é uma garantia...E se não acordo? O que fazes? Se não entro de rompante na tua manhã, mal amanhecida? Mas felizmente sempre acordo, como quem abre uma porta e sai para a rua, desta casa de sonhos...( pág. 24)

















Uma edição da 4Estações-Editora

                                                  Nas Livrarias ( PVP 12,72€) ou www.castordepapel.pt



domingo, 22 de fevereiro de 2015

Ione França. Acordei como acordam os tolos, cheia de felicidades.4Estações-Editora. Na Fnac Cascais Shopping.

Neste novo livro, Acordei como Acordam os Tolos,Cheia de felicidades, Ione França apresenta uma coletânea de textos, que intitula de Cantos, reflexões sobre o seu quotidiano, em prosa poética.
Poesia madura e de grande sensibilidade e espírito crítico que por vezes nos desafia. Sempre profunda, perturbadora e corajosa.
Magicamente, a autora envolve as palavras com mantos diversos, seja o da fantasia ou o da crueldade, o da angústia ou da ternura, o da dor ou da alegria, o da revolta ou da compreensão.
Cada palavra é como a peça de um puzzle que a poetisa ensaia armar para construir um quadro que revela a sua inquietude pela mesquinhez e crueldade da alma humana, mas também o seu conhecimento e aceitação da beleza e das surpresas do mundo em que vivemos.
À guisa de subtítulo, a autora escreve: " Vamos falar ou sentir a doçura das palavras." E, assim, canta: "Acendo incensos imaginários e em quietude construo a minha oração, construo com a visível presença do meu eu, a delicadeza da minha respiração e com as grandes covardias às quais me permito. E assim delicada, viva, covarde e presente, ofereço-me em preces." Ou ainda: " Encontrei um peda-
ço de pele e de alma. Da pele fiz corpo, da alma palavra.
Palavra  quieta. Assim posso sentir como uma espécie 
de doçura os dias que me inventam."  
MMM
www.castordepapel.pt

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Acordei como acordam os tolos, cheia de felicidades. Blog Folhas de Papel

  1. Acordei como acordam os tolos, cheia de felicidades (2015 ...

    https://folhasdepapel.wordpress.com/2015/02/02/4138/
    02/02/2015 - Neste novo livro, Ione França apresenta uma coletânea de textos, que intitula de Cantos, reflexões sobre o seu quotidiano, ... Folhas de Papel.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Silêncio...que o amor está a acontecer.

O suor dos olhos...ou os dias que me                                                 inventam.

São dias experimentados até ao suor dos olhos, entre as janelas abertas, bem no meio do instante que promete futuros.
Ainda agora encontrei um pedaço de pele e de alma.
Da pele fiz corpo, da alma palavra. Palavra quieta. Assim
posso sentir como uma espécie de doçura os dias que me inventam.

Silêncio...que o amor está a acontecer.

Nas Livrarias a partir de 18 de Fevereiro 2015. 

www.castordepapel.pt

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Mário de Moura . Da Beleza e da Veracidade.

   22.  DA BELEZA E DA VERACIDADE
  Um internauta tropeçou no meu blogue e depois fez reparos ao meu post do final do ano, em que publiquei um muito conhecido e belo texto, ‘Desiderata’, bem adequado à quadra natalícia. O leitor chamava-me a atenção para o facto de esse texto não ter sido gravado na pedra na velha Igreja de São Paulo, em Baltimore, em 1692 (como eu mencionei). Afirma que ‘Desiderata’ foi escrita em 1927 por Max Ehrman, um poeta, mas por ter sido divulgada por um padre levou a esse erro frequentemente cometido.
  Sinceramente, eu já sabia dessa versão, contudo não a mencionei: primeiro, por não acreditar muito nela, várias pessoas afirmam terem fotografado este texto gravado na pedra; segundo, porque é mais interessante que seja um texto com alguns séculos e gravado na pedra no interior de uma velha igreja do que um artigo publicado num jornaleco de província; terceiro, porque o que me importa é a beleza e a força da sua mensagem. Se foi X ou Y que o escreveram, no séc. 17 ou 20, pouco me importa.
  Imaginem que encontro uma bela poesia de Fernando Pessoa gravada na pedra no interior de uma velhíssima igreja alentejana, sem assinatura e datada de 1825. Entusiasmado divulgo-a acrescentando que é anónima e que tem quase cem anos. Deixa de ser menos bela se alguém a identificar como sendo do nosso maior poeta e de ter sido encontrada no célebre baú?
   Há um outro caso similar, que também vem levantando controvérsias. É um outro texto lindíssimo e que deveria ser divulgado nas escolas pela sua beleza, força e atualidade, um verdadeiro manifesto ecológico. Estou a falar da ‘Carta do Chefe índio (na realidade cacique), Seattle, ao presidente dos Estados Unidos, Franklin Pierce’, em 1854, quando este lhe propôs comprar uma grande área onde habitava a sua tribo e confiná-los a uma reserva.
 De novo a mesma questão. A carta não teria sido escrita diretamente pelo chefe índio Duwamish, de nome Seattle (as terras em questão são quase na fronteira do Canadá), ao presidente americano, mas sim por um tal Dr. Henry Smith que assistiu à reunião desse respeitado cacique com a sua tribo para discutir a oferta do presidente americano. Esse Dr. Smith ficou tão impressionado com a eloquência tão brilhante, lúcida e emocionante do cacique e com o profundo respeito que inspirava ao seu povo, para além da coragem das suas palavras, que anotou uns apontamentos, na base dos quais publicou essa ‘falsa carta’ num jornal (Seattle Sunday Star), em 1887, que daí em diante passou a ser conhecida como ‘A Carta do chefe Seattle ao Presidente dos Estados Unidos’ até aos nossos dias.
   Mas o que importa? O que vale é a beleza e a importância do texto. As palavras, sim, só podem ter sido pronunciadas por um índio genuíno, velho e sábio. A ironia, a lucidez, o amor à terra e aos animais, a coragem, explodem nestas linhas e tornam-nas perenes.
  Adiante poderão ler uma versão divulgada na década de setenta do discurso do cacique Seattle, e após o encarregado dos negócios indígenas do governo norte-americano ter feito a proposta de adquirir as terras da tribo Duwamish, texto este traduzido pela equipe de ‘Floresta Brasil’, e mantido inalterável, no estilo e na ortografia.

O pronunciamento do cacique Seattle
O grande chefe de Washington mandou dizer que desejava comprar a nossa terra, o grande chefe assegurou-nos também de sua amizade e benevolência. Isto é gentil de sua parte, pois sabemos que ele não precisa de nossa amizade.
Vamos, porém, pensar em sua oferta, pois sabemos que se não o fizermos, o homem branco virá com armas e tomará nossa terra. O grande chefe de Washington pode confiar no que o Chefe Seattle diz com a mesma certeza com que nossos irmãos brancos podem confiar na alteração das estações do ano.
Minhas palavras são como as estrelas que nunca empalidecem.
Como podes comprar ou vender o céu, o calor da terra? Tal idéia nos é estranha. Se não somos donos da pureza do ar ou do resplendor da água, como então podes comprá-los? Cada torrão desta terra é sagrado para meu povo, cada folha reluzente de pinheiro, cada praia arenosa, cada véu de neblina na floresta escura, cada clareira e inseto a zumbir são sagrados nas tradições e na consciência do meu povo. A seiva que circula nas árvores carrega consigo as recordações do homem vermelho.
O homem branco esquece a sua terra natal, quando - depois de morto - vai vagar por entre as estrelas. Os nossos mortos nunca esquecem esta formosa terra, pois ela é a mãe do homem vermelho. Somos parte da terra e ela é parte de nós. As flores perfumadas são nossas irmãs; o cervo, o cavalo, a grande águia - são nossos irmãos. As cristas rochosas, os sumos da campina, o calor que emana do corpo de um mustang, e o homem - todos pertencem à mesma família.
Portanto, quando o grande chefe de Washington manda dizer que deseja comprar nossa terra, ele exige muito de nós. O grande chefe manda dizer que irá reservar para nós um lugar em que possamos viver confortavelmente. Ele será nosso pai e nós seremos seus filhos. Portanto, vamos considerar a tua oferta de comprar nossa terra. Mas não vai ser fácil, porque esta terra é para nós sagrada.
Esta água brilhante que corre nos rios e regatos não é apenas água, mas sim o sangue de nossos ancestrais. Se te vendermos a terra, terás de te lembrar que ela é sagrada e terás de ensinar a teus filhos que é sagrada e que cada reflexo espectral na água límpida dos lagos conta os eventos e as recordações da vida de meu povo. O rumorejar d'água é a voz do pai de meu pai. Os rios são nossos irmãos, eles apagam nossa sede. Os rios transportam nossas canoas e alimentam nossos filhos. Se te vendermos nossa terra, terás de te lembrar e ensinar a teus filhos que os rios são irmãos nossos e teus, e terás de dispensar aos rios a afabilidade que darias a um irmão.
Sabemos que o homem branco não compreende o nosso modo de viver. Para ele um lote de terra é igual a outro, porque ele é um forasteiro que chega na calada da noite e tira da terra tudo o que necessita. A terra não é sua irmã, mas sim sua inimiga, e depois de a conquistar, ele vai embora, deixa para trás os túmulos de seus antepassados, e nem se importa. Arrebata a terra das mãos de seus filhos e não se importa. Ficam esquecidos a sepultura de seu pai e o direito de seus filhos à herança. Ele trata sua mãe - a terra - e seu irmão - o céu - como coisas que podem ser compradas, saqueadas, vendidas como ovelha ou missanga cintilante. Sua voracidade arruinará a terra, deixando para trás apenas um deserto.
Não sei. Nossos modos diferem dos teus. A vista de tuas cidades causa tormento aos olhos do homem vermelho. Mas talvez isto seja assim por ser o homem vermelho um selvagem que de nada entende.
Não há sequer um lugar calmo nas cidades do homem branco. Não há lugar onde se possa ouvir o desabrochar da folhagem na primavera ou o tinir das asas de um inseto. Mas talvez assim seja por ser eu um selvagem que nada compreende; o barulho parece apenas insultar os ouvidos. E que vida é aquela se um homem não pode ouvir a voz solitária do curiango ou, de noite, a conversa dos sapos em volta de um brejo? Sou um homem vermelho e nada compreendo. O índio prefere o suave sussurro do vento a sobrevoar a superfície de uma lagoa e o cheiro do próprio vento, purificado por uma chuva do meio-dia, ou recendendo a pinheiro.
O ar é precioso para o homem vermelho, porque todas as criaturas respiram em comum - os animais, as árvores, o homem.
O homem branco parece não perceber o ar que respira. Como um moribundo em prolongada agonia, ele é insensível ao ar fétido. Mas se te vendermos nossa terra, terás de te lembrar que o ar é precioso para nós, que o ar reparte seu espírito com toda a vida que ele sustenta. O vento que deu ao nosso bisavô o seu primeiro sopro de vida, também recebe o seu último suspiro. E se te vendermos nossa terra, deverás mantê-la reservada, feita santuário, como um lugar em que o próprio homem branco possa ir saborear o vento, adoçado com a fragrância das flores campestres.
Assim pois, vamos considerar tua oferta para comprar nossa terra. Se decidirmos aceitar, farei uma condição: o homem branco deve tratar os animais desta terra como se fossem seus irmãos.
Sou um selvagem e desconheço que possa ser de outro jeito. Tenho visto milhares de bisões apodrecendo na pradaria, abandonados pelo homem branco que os abatia a tiros disparados do trem em movimento. Sou um selvagem e não compreendo como um fumegante cavalo de ferro possa ser mais importante do que o bisão que (nós - os índios) matamos apenas para o sustento de nossa vida.
O que é o homem sem os animais? Se todos os animais acabassem, o homem morreria de uma grande solidão de espírito. Porque tudo quanto acontece aos animais, logo acontece ao homem. Tudo está relacionado entre si.
Deves ensinar a teus filhos que o chão debaixo de seus pés são as cinzas de nossos antepassados; para que tenham respeito ao país, conta a teus filhos que a riqueza da terra são as vidas da parentela nossa. Ensina a teus filhos o que temos ensinado aos nossos: que a terra é nossa mãe. Tudo quanto fere a terra - fere os filhos da terra. Se os homens cospem no chão, cospem sobre eles próprios.
De uma coisa sabemos. A terra não pertence ao homem: é o homem que pertence à terra, disso temos certeza. Todas as coisas estão interligadas, como o sangue que une uma família. Tudo está relacionado entre si. Tudo quanto agride a terra, agride os filhos da terra. Não foi o homem quem teceu a trama da vida: ele é meramente um fio da mesma. Tudo o que ele fizer à trama, a si próprio fará.
Os nossos filhos viram seus pais humilhados na derrota. Os nossos guerreiros sucumbem sob o peso da vergonha. E depois da derrota passam o tempo em ócio, envenenando seu corpo com alimentos adocicados e bebidas ardentes. Não tem grande importância onde passaremos os nossos últimos dias - eles não são muitos. Mais algumas horas, menos uns invernos, e nenhum dos filhos das grandes tribos que viveram nesta terra ou que têm vagueado em pequenos bandos pelos bosques sobrará, para chorar sobre os túmulos de um povo que um dia foi tão poderoso e cheio de confiança como o nosso.
Nem o homem branco, cujo Deus com ele passeia e conversa como amigo para amigo, pode ser isento do destino comum. Poderíamos ser irmãos, apesar de tudo. Vamos ver, de uma coisa sabemos que o homem branco venha, talvez, um dia descobrir: nosso Deus é o mesmo Deus. Talvez julgues, agora, que o podes possuir do mesmo jeito como desejas possuir nossa terra; mas não podes. Ele é Deus da humanidade inteira e é igual sua piedade para com o homem vermelho e o homem branco. Esta terra é querida por ele, e causar dano à terra é cumular de desprezo o seu criador. Os brancos também vão acabar; talvez mais cedo do que todas as outras raças. Continuas poluindo a tua cama e hás de morrer uma noite, sufocado em teus próprios dejetos.
Porém, ao perecerem, vocês brilharão com fulgor, abrasados, pela força de Deus que os trouxe a este país e, por algum desígnio especial, lhes deu o domínio sobre esta terra e sobre o homem vermelho. Esse destino é para nós um mistério, pois não podemos imaginar como será, quando todos os bisões forem massacrados, os cavalos bravios domados, as brenhas das florestas carregadas de odor de muita gente e a vista das velhas colinas empanada por fios que falam. Onde ficará o emaranhado da mata? Terá acabado. Onde estará a águia? Irá acabar. Restará dar adeus à andorinha e à caça; será o fim da vida e o começo da luta para sobreviver.
Compreenderíamos, talvez, se conhecêssemos com que sonha o homem branco, se soubéssemos quais as esperanças que transmite a seus filhos nas longas noites de inverno, quais as visões do futuro que oferece às suas mentes para que possam formar desejos para o dia de amanhã. Somos, porém, selvagens. Os sonhos do homem branco são para nós ocultos, e por serem ocultos, temos de escolher nosso próprio caminho. Se consentirmos, será para garantir as reservas que nos prometestes. Lá, talvez, possamos viver os nossos últimos dias conforme desejamos. Depois que o último homem vermelho tiver partido e a sua lembrança não passar da sombra de uma nuvem a pairar acima das pradarias, a alma do meu povo continuará vivendo nestas floresta e praias, porque nós a amamos como ama um recém-nascido o bater do coração de sua mãe.
Se te vendermos a nossa terra, ama-a como nós a amávamos. Protege-a como nós a protegíamos. Nunca esqueças de como era esta terra quando dela tomaste posse: E com toda a tua força o teu poder e todo o teu coração - conserva-a para teus filhos e ama-a como Deus nos ama a todos. De uma coisa sabemos: o nosso Deus é o mesmo Deus, esta terra é por ele amada. Nem mesmo o homem branco pode evitar o nosso destino comum.
                                                        ***

 Ao ler esta carta (pronunciamento) dá-me vontade de ser cineasta e fazer uma curta-metragem com base nela. O filme enfatizaria várias vezes a imagem do cacique Seattle a falar à sua numerosa tribo, uma multidão de rostos, focando de quando em quando os mais expressivos, exibiria a floresta ao fundo com as suas imponentes e seculares árvores, depois adentrava nela e explorava as frondosas copas com os seus pássaros, esquilos e outros pequenos animais, não deixaria de valorizar as altas montanhas ainda com neve, assim como rios de água cristalina precipitando-se em pequenas cascatas,  ainda uma imensa planície que servia de pasto para gazelas e veados, e no céu a majestosa águia e muitas outras aves, até borboletas a bailar caprichosamente.
   Imagino as imagens a acompanharem passo a passo as palavras corajosas do velho índio revelando as cenas que ele denuncia.
  Seria, creio, um belo e educativo documentário para passar nas escolas. Claro, uma utopia.
                                                   ***

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Com a felicidade dos tolos, Ione França




Acordei como acordam os tolos
Cheia de felicidades
Coloco-me no plural como quem pousa um vaso
com violetas africanas no peitoril da janela.
Assim, definitiva aproximação, como beija-flor na flor
Leve, devagar, sem outras intenções ou atos
Apenas flores na janela
A noite, também acendo velas na janela
Uma vela para ser mais exata
Sempre me parece que a exatidão é um perigo
Perigo de sermos apenas aquilo que pensamos que somos
Perigo de pensarmos que somos apenas o que fazemos.


O que peço?

Mais um dia
Em que possa acordar
Com a felicidade dos tolos
(c) Ione França

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

As Leituras do Corvo

DOMINGO, 25 DE JANEIRO DE 2015

Acordei como Acordam os Tolos, Cheia de Felicidades (Ione França)

Num olhar sobre o mundo que mistura a magia e o impossível com as coisas mais ou menos banais do quotidiano, estes são textos que contemplam a vida, no seu mais belo e no que tem de mais cruel. Olhares que vêem de uma forma inesperada, que misturam os cenários mais improváveis com a simplicidade dos sonhos e dos afectos. São textos cuja soma é uma perspectiva bastante pessoal, e, ainda assim, particularmente lúcida, sobre o que é o mundo dentro de cada um.
Um dos aspectos mais cativantes neste livro é que cada um dos textos é, por si mesmo, uma forma completa e, ainda assim, o conjunto forma um todo maior que a soma das partes. Há uma impressão de unidade, de perspectiva comum a todos os textos, uma voz própria que se reconhece ao longo de todo o livro. E é interessante notar que, seja na contemplação de um amor pouco familiar, num relance às noites mais sombrias da vida ou numa perspectiva própria do que é - ou do que devia ser - a vida quotidiana, há uma personalidade coesa que se reflecte nas ideias.
E das ideias sobressai um outro ponto forte. Se há, de facto, questões que se repetem nalguns dos textos, o que é particularmente evidente para quem ler o livro todo, ou em grande parte, de seguida, há, ainda assim, uma boa diversidade. De temas, de pontos de vista e de formas de entender cada situação. Esta diversidade, conjugada com a tal impressão de unidade do sujeito, misturam-se num equilíbrio delicado, formando um todo coeso, mas em que cada ideia é válida por si mesma. E, por isso, um conjunto mais complexo.
Por último, importa ainda referir a forma de escrita, e também nesta se destaca o equilíbrio. Entre frases simples e outras de complexidade surpreendente, imagens facilmente reconhecíveis e outras tão improváveis que não podem deixar de surpreender, percursos descritivos e momentos de introspecção. Tudo isto nas medidas certas, e na base de uma construção mais ampla, em que também em termos de escrita os traços que há em comum entre os vários textos se tornam especialmente evidentes.
A soma de tudo isto é, portanto, um livro equilibrado, em que a diversidade de temas se conjuga com a unidade da voz que os aborda, para dar forma a uma leitura cativante e surpreendente. Vale a pena ler.

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segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

mariommoura.blogspot.com

19.       PARTIDA. A GRANDE AVENTURA

  Naquele tempo (1949), uma viagem de avião internacional era inusitada,  pelo que foi natural  que toda a família fosse ao aeroporto dizer adeus ao jovem que embarcava já depois da meia noite para Nova York, para um futuro completamente desconhecido.  Hoje, para mim, uma rematada loucura, mas, então, uma fantástica aventura.
  Quando os altifalantes berraram: “Senhor Mário Mendes Moura, favor dirigir-se ao balcão da Polícia de Vigilância e Defesa  Internacional”,  gelei. Contudo, não podia mostrar que ficara preocupado, principalmente perante a minha mãe e o meu pai,  fiz um sorriso de  tranquilidade e lá fui, com o coração apertado.
  No guiché da PVDI, lá estavam dois pides com a indisfarçável cara de pides. Com um falso sorriso de ingénuo perguntei porque me chamavam.
— O senhor não vai poder viajar, acho que  conheço a sua cara, e este passaporte não me parece em ordem,  preciso de averiguar a sua ficha lá na sede.
— Mas que ficha? Sou estudante, vou fazer uma viagem de negócios na Venezuela, para o meu pai que não consegue viajar. Volto antes de um mês, veja na minha passagem. Tenho visto de trânsito nos Estados Unidos e de turista na Venezuela, estão aí confirmados e carimbados no passaporte. Está tudo em ordem.
— Conheço a sua cara, não me engano. Faço plantões lá na sede a vigiar os que fazem ‘estátua’. Lembro-me bem que, quando foi a sua vez,  foi muito engraçadinho ao dizer-me que mais tarde os meus filhos me iriam ver enforcado nos candeeiros da Avenida da Liberdade, e se eu não ficava preocupado com isso. 
   Entrei em pânico, mas felizmente acho que não o demonstrei. Claro, estive em várias sessões do que eles chamavam ‘estátua’, nas quais um pide se sentava e nos vigiava para não nos sentarmos no chão, tínhamos que ficar de pé, andar o mínimo. De duas em duas horas o pide era revezado e o que chegava vinha sempre com ameaças e grosserias para nos desmoralizar. O truque era dizer coisas do género das que o pide agora me acusava.
  Se não embarcasse, adeus à viagem. A António Maria Cardoso informaria que eu estava com residência fixada em Lisboa e que o meu pedido de passaporte não tinha passado por lá. Realmente, tinha conseguido o meu passaporte diretamente no Registo Civil Central, com ordem direta do Capitão Matos, Tesoureiro Geral, nosso vizinho e que me conhecia desde garoto. Por isso não houvera o trâmite da passagem do processo pela PVDI.
   ‘Perdido por cem, perdido por mil’, pensei. Com a maior naturalidade disse ao polícia:
— Olhe, senhor, pode telefonar para o Capitão José Catela, ou pedir que a sede o faça, para dizer que o filho do senhor Gil Mendes de Moura está aqui para embarcar com a documentação em ordem e vocês querem impedir.
— Acha que vamos telefonar para o Capitão a esta hora?
— É melhor do que ele amanhã cair em cima de vocês os dois! Telefonem, por favor.
  A minha insistência e a cobardia deles acabou por convencê-los. Com muitas hesitações, troca de palavras entre os dois, resolveram liberar-me. Eu sabia, por experiência, que eles tinham mais medo do ‘esquema pidesco’ do que nós, os detidos. Claro está que o Capitão Catela nem imaginava a existência do meu pai, um pacato importador/exportador autónomo. Também não sei porque pelo menos não telefonaram para a sede, talvez por ser tarde, ou por insegurança.
   O numeroso grupo familiar, umas vinte pessoas, sem suspeitar sequer  do susto por que eu passara, acolheu-me em clima de festa  e de antecipada saudade, que afinal duraria duas décadas. Entretanto eu contava angustiado os minutos para a partida. Claro,  não foi sem emoção que me despedi de todos, rumo a Caracas, via Nova York, voo TWA, com não muito mais do que cem dólares no bolso.
  Fora o meu amigo António Pedro, de quem eu era padrinho do casamento dele com a minha boa amiga Glicínia Quartin,  que trabalhava na TWA,  a aconselhar-me esse voo,  às quintas-feiras e que deveria fazer conexão na sexta  de Nova York para Caracas, pela AVE. Mas, segundo António Pedro, essa conexão numa acontecia como era prevista no horário e, neste caso, eu entretanto ficaria por conta da companhia até acontecer o tal voo semanal para Caracas, provavelmente dois ou três dias mais tarde.
   Quando me sentei na poltrona do avião senti a alegria de estar em liberdade. Alegria que durou apenas umas três horas, pois logo anunciaram a descida para o aeroporto de Santa Maria, aeroporto açoriano construído pelos americanos durante a guerra para abastecimento dos seus voos intercontinentais, e que passou ao serviço da aviação civil portuguesa em 1946.
  ‘Não muito longe da terrível ilha que albergava a prisão do Tarrafal’, pensava eu aterrorizado. ‘E se os pides depois comunicaram com a sede e esta contactara com o aeroporto para onde estávamos a descer, ordenando a minha detenção?’, interrogava-me. 
   Quando o avião aterrou fingi estar a dormir para não sair, mas sem resultado, a hospedeira informou-me de que todos os passageiros, todos,  tinham  mesmo que sair. Desci do avião e percorri a pé e preocupado o piso do aeroporto até à gare, nessa época nem se sonhava com ‘mangas.  No portão da gare estava um tipo da Polícia de Vigilância pedindo os passaportes aos viajantes. Entreguei o meu, claro, e fiquei vagueando pelo salão na certeza de que, ao voltar para o avião, o pide não me devolveria o passaporte e nem me deixaria embarcar. Um sofrimento.
   Mas felizmente as minhas preocupações eram infundadas. Era apenas uma rotina e Lisboa dormia. Ao voltar à minha poltrona jurei para mim mesmo não mais voltar a Portugal enquanto o regime fosse fascista, com ou sem Salazar.

  Nevava à chegada a Nova York. Era fevereiro. Não tive quaisquer problemas com a Polícia de Imigração Americana, para minha surpresa. Também não foi surpresa o representante da AVE, a companhia de aviação venezuelana que garantia a ida para Caracas, informar-me  que não havia voo previsto para Caracas para aquele dia, nem sequer para sábado. Possivelmente o voo seria no domingo. Confirmariam o voo diretamente para o hotel, para onde me recambiaram com um voucher para pagar a estadia, julgo que se chamava ou White Elephant, ou Big Elephant, em Manhattan. Um hotel do tipo de três estrelas de hoje, não mais de quinze andares, não longe do Empire Building. Nunca consegui localizá-lo das muitas vezes que depois visitei aquela cidade. Inexperiente na época nem reclamei da AVE o pagamento do transporte para a cidade.
  Mal acabei o meu diálogo ao balcão da AVE, uma confusão imensa em razão de muitos outros passageiros na mesma situação do que eu, afastei-me um pouco do balcão e logo um pretão me disse algo que não entendi, estava aparentemente de uniforme, e afastou-se arrastando pelo chão a minha mala (não haviam inventado ainda as malas com rodinhas). Felizmente deixou-me na fila de táxis e cobrou-me três dólares.
  O trajeto para a cidade maravilhava-me, exultei ao atravessar a ponte que tão bem conhecia de filmes, mas não achei graça nenhuma quando o táxi estacionou frente ao hotel e me arrancou uma enormidade de dólares. Considerando os meus recursos, deveria ter usado ónibus até à Grande Central e só depois usar táxi.
   Assim que me instalei no quarto e usei a casa de banho, vesti os agasalhos de que dispunha e a gabardine, e saí para me meter na neve. Era puro entusiasmo, Estados Unidos, neve, Nova York, Manhattan, uma nova vida, julgava que promissora. Quase rebentava pelas costuras. Num atrelado tomei um chocolate quente com donuts, a delícia das delícias, enquanto admirava os flocos de neve a  flutuarem, uma novidade para mim.
  Independente, rumo a um país rico de oportunidades, longe de um regime castrador, estava confiante de que não demoraria a estar ‘muito bem’ e a poder chamar a minha mulher e o meu filho, com pouco mais de um ano.
   No Consulado da Venezuela, em Lisboa, quando pedi o visto e apresentei o certificado do curso de silvicultura, apesar de faltar uma cadeira e o estágio, garantiram-me que o governo me doaria terras e maquinaria e faria empréstimos para eu montar uma exploração agrícola. ‘Como nos filmes americanos’, pensei, e acreditei, pois estava tudo por fazer na agricultura da Venezuela. Pobre de mim, não conhecia ainda a descarada mentira da burocracia sul-americana.
     Por dois dias vagueei pela notável ‘maçã’ e tudo me maravilhava. Tinha direito ao pequeno-almoço no hotel e nele tratava de fazer as minhas ‘reservas’, como um camelo antes de enfrentar o deserto. Não era o deserto que eu ia enfrentar mas sim uma gigantesca, soberba e assustadora cidade. Durante o dia, os muffins, os  hot dogs e osmeat balls garantiam-me  a energia a preço módico.
   Para quem sempre vivera em Lisboa, especialmente em Campo de Ourique, com os seus modestos prédios de quatro andares, a diferença era abissal. A cidade impressionou-me muito, com os seus arranha-céus, alguns interessantes, o imenso movimento de pessoas a todas as horas do dia e da noite, a variedade de raças cruzando-se nessas multidões, o néon das lojas e dos gigantescos anúncios publicitários. Contudo, o cinema tem o condão de mistificar as cidades, como também de desvirginá-las. Tantos e tantos filmes haviam criado em mim um forte desejo de conhecer esta cidade, mas vira tantas e tantas vezes aquelas ruas, prédios e anúncios luminosos, que estes não me eram desconhecidos.
   Estranhamento, eu que sou friorento enfrentava bem o frio, que este sim, desconhecia. Percorria as ruas como um andarilho, ou um desesperado vagabundo, lembrava-me de alguns contos de O’Henry e de Tchecov, entrava o mais possível nos espaços fechados e olhava tudo como menino frente à montra de uma loja de doces. Lia com atenção os menus dos restaurantes, o quadro com os preços das entradas nos cinemas (que variavam de sessão para sessão), espiava o custo das entradas nos museus, e os meus não-dólares obrigavam-me a sorrir e continuar  em frente.
   Otimista, prometia a mim mesmo voltar àquela cidade com dinheiro suficiente para não ter todos aqueles acessos impedidos. Não sabia ainda que tão poucos anos depois voltaria muitas vezes, mais de uma dúzia, em condições de usufruir a múltipla e plurifacetada oferta desta babel, que nunca sossega, nunca dorme, sempre tem algo de novo a oferecer.
   Domingo finalmente o carro da companhia, como tinham avisado, apanhou-me no hotel para me levar ao aeroporto. O avião com as cores venezuelanas era bem menor do que o da TWA e não me inspirou muita confiança. Mas o que fazer? Contudo foi um voo tranquilo, talvez de seis ou sete horas.

 Na chegada à Venezuela, quando me despachei da Imigração em Maquetia, contei os meus dólares, treze. Perguntei quanto era um táxi para Caracas e após longa discussão a ‘corrida’ ficou estabelecida em doze dólares. E lá começámos a escalada, do nível do mar até à cota mil, onde os espanhóis encarrapitaram Caracas. Apenas vinte quilómetros, mas curvas em declive assustador, uma estrada estreita, realmente empolgante. Só muito depois foi construída uma autoestrada com arrojados viadutos que tornam hoje esta viagem um passeio.
   O táxi largou-me no centro da cidade, rodeado de arcadas, uma bela solução para um clima tropical e de inspiração francesa, copiando a Rue Royal  de Paris. Fora nesta praça que tinha combinado com o meu amigo Daniel Morais o encontro, antes por carta e depois de Nova York por telegrama, do próprio aeroporto, avisando da hora provável da chegada.
   Enquanto esperava entrei numa ‘Fuente de Soda’, que deduzi tratar-se de uma pastelaria mais moderna, tomei um delicioso sumo de pera e uma sanduíche de queijo, e lá se foi o meu último dólar. Mas senti-me feliz, imensamente feliz. Vim a saber depois que parvamente feliz.
  Foi com alegria que abracei o Daniel, que não demorou a chegar, o meu querido e leal amigo, companheiro presente mas invisível no Aljube, e depois partilhando a mesma cela em Caxias. Éramos ambos da Comissão Central do MUD Juvenil e ambos tínhamos sido presos em 31.1.48 sob o pretexto do MUDJ ter convocado uma manifestação para esse dia, comemorando uma esquecida data de uma revolução portuense. Ficámos dois meses em celas distintas no Aljube e depois de muitos interrogatórios, em que tentaram sempre que um denunciasse o outro, com artifícios e mentiras, fomos transferidos para Caxias. Apenas os dois numa grande cela, felizmente com janela, mas suspeitávamos que estávamos sob escuta, pois não encontrávamos explicação para esta transferência se não fosse esse o objectivo: escutar as nossas conversas. E foi um martírio, pois os nossos diálogos eram censurados por nós mesmos, alguma coisa mais confidencial era escrita e depois queimada.
   Mas naquele momento, sob aquele sol radioso e céu azulíssimo, o que importava é que eu tinha uma vida pela frente em liberdade e, acreditava, cheia de possibilidades.

  Naquele país comi o pão que o Diabo amassou, e não é gostoso, mas foi lá que fiquei adulto. Deixei de ser ingénuo e sonhador, tornei-me mais pragmático e realista, mas não canalha,   para poder enfrentar a difícil vida de emigrante e de homem de negócios.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

O DOMADOR DE ALMAS 
O SEU ÚNICO OFÍCIO, 
                                              AMAR…
Amo! Ah, como amo!
O meu único ofício é amar.
Salário? Nenhum… Pago promessas.
Sou o Funcionário Público do amor e amo todas as manhãs, tardes e noites nos gabinetes de trabalho da cidade, pelos armazéns das docas…nu, apaixonado e viril. Foi na secretária castanha que emprenhei a amásia do patrão. Cadelinha faceira!
A cabra tratou direitinho da minha desgraça. Aborto? Nem pensar! Mentir que o filho é do chefe, nunca! Pior, andou de barriga crescida por mais de nove meses, ainda tenho a impressão que foi por uns dezoito e tantos anos. E quando a criaturinha nasceu, já nasceu com dentes, cabelo, alfabetizada e de profissão. O meu menino é o Domador de Almas e, na injustiça de ser filho meu, e de estar cheio de amores com a mãe, surpreendeu-me a amar esta musa. Arrastou-me para a fogueira, arranjada em praça pública pela sua vontade e sem o seu amor de filho, só com a sua rivalidade de homem, acendeu os fósforos e desgraçou-me o corpo… O amor não me livrou o corpo das chamas, salvou-me apenas os olhos e o espírito, que não queimaram junto às minhas carnes e nudez.
Já não tenho corpo, só estes dois olhos, estas duas rodelas cinzas, amparadas sobre as tábuas dos soalhos dos escritórios ou nas frias pedras das ruas. É com eles, somente com eles, que conto para amar todas as mulheres que vejo.
Ela, a mãe do Domador de Almas, por despeito, não aconselhou o filho a poupar-me. Foi bonita e quando a possuí era a minha musa de fim de tarde, o meu sonho de cheiros e de prazeres. Quando lhe dei as costas e fui em busca de outras musas sabia da sua gravidez, mas não do seu desprezo e vinganças. Se a mulher tivesse dito uma palavra, o filho ainda teria Pai, e o Pai ainda seria amante!
Estou vivo, ainda vivo e amo, mesmo que sem o consolo de ter o meu corpo, mas com estes meus dois olhos, inexplicavelmente inteiros. De cor cinza, desde o meu nascimento eles já se predestinavam a acabar, apenas, olhos e cinzas!
Só me restam estes dois olhos perdidos no mundo, perdidos, mas honrados. Amam e não se cansam de tanto amar. O meu corpo, no meio das labaredas vermelhas, azuis e amarelas, deixou de ser corpo, de ter a cor da pele. E não pensem que guardo rancor, ao meu menino, é filho, sangue do meu esperma, tive outros, mas este é especial, traçou-me o destino. 
O SEU ÚNICO OFÍCIO,
                                              SOFRER…

©Ione França


sábado, 8 de novembro de 2014

As cores de muitas vidas...

Manhãs de sábado no Van Gogh Museum, Amsterdam. Novos olhares para o mesmo mundo...
Ione França e Mário de Moura